Adeus CLT? Por que cresce o número de jovens que não querem mais saber de carteira assinada

A discussão sobre o futuro da CLT, da carteira assinada e dos direitos do trabalho voltou ao centro do debate porque cada vez mais jovens dizem preferir autonomia, renda rápida e flexibilidade em vez do emprego tradicional. Só que a realidade é mais complexa do que a frase adeus CLT sugere.

O mercado formal segue forte no Brasil, mas a forma como a juventude enxerga trabalho, estabilidade e qualidade de vida claramente mudou. Em 2025, o país registrou a menor taxa anual de desocupação da série e chegou a 38,9 milhões de empregados do setor privado com carteira assinada, o maior número já observado pelo IBGE.

Adeus CLT

A carteira assinada não acabou, mas perdeu o monopólio do sonho

O dado mais importante para entender o tema é este: a carteira assinada continua relevante, inclusive entre os jovens. Segundo o Ministério do Trabalho e Emprego, no fim de 2024 o Brasil tinha 14,5 milhões de jovens ocupados, e 53% deles tinham vínculo formal com carteira assinada. Ao mesmo tempo, 44% ainda estavam na informalidade.

Isso mostra que a juventude não abandonou em massa a formalização, mas também não enxerga mais a CLT como único caminho desejável.

Em outras palavras, a carteira assinada continua presente, porém agora disputa espaço com outras formas de ganhar dinheiro. Aplicativos, trabalho por conta própria, pequenos negócios, freelas e prestação de serviço passaram a ocupar um lugar que antes era quase sempre preenchido pelo emprego formal.

Esse deslocamento ajuda a explicar por que tanta gente jovem fala em liberdade antes mesmo de falar em estabilidade. A própria política pública para aprendizagem tem crescido, com recordes de contratação, justamente porque o ingresso formal no mercado ainda é visto como desafio para grande parte dessa faixa etária.

O que está afastando parte dos jovens da carteira assinada

Uma das razões mais claras é a busca por autonomia. O Sebrae informa que os jovens de 18 a 29 anos lideram o grupo que procura autonomia financeira ao se formalizar como MEI, com 41% citando esse motivo. Isso revela uma mudança de mentalidade: para muitos, o objetivo não é apenas conseguir emprego, mas controlar rotina, renda e trajetória profissional.

Esse movimento aparece junto com o crescimento do empreendedorismo de pequeno porte. No primeiro trimestre de 2025, o número de MEIs registrados no país cresceu 35% em comparação com o mesmo período de 2024, segundo o governo federal. Quando esse dado é colocado ao lado da procura por autonomia entre os mais jovens, fica mais fácil entender por que a carteira assinada deixou de ser a única imagem de sucesso para uma parte da nova geração.

Outro fator importante é que muitos jovens olham para o emprego formal e não enxergam a promessa de segurança que seduziu gerações anteriores. Salário apertado, deslocamento longo, rigidez de horário, baixa perspectiva de crescimento e desgaste emocional fazem com que a conta nem sempre feche.

O blog do IBRE/FGV resume bem esse cenário ao apontar que, apesar do bom desempenho recente do mercado com carteira assinada, os jovens seguem enfrentando barreiras próprias, como falta de experiência, defasagem na qualificação técnica e desigualdade de acesso à educação de qualidade.

O peso da informalidade e do trabalho por conta própria

Não dá para falar em rejeição à CLT sem olhar para a informalidade. O próprio Ministério do Trabalho mostrou que a informalidade entre os jovens caiu, mas ainda atingia 44% no fim de 2024.

Em 2024, o governo também chamou atenção para um dado especialmente duro: entre jovens condutores de motocicleta, os chamados motoboys, a informalidade alcançava 82%. Isso mostra que, em muitos casos, não se trata apenas de escolha pura e simples, mas também de falta de acesso a vagas formais compatíveis com a realidade de quem precisa gerar renda rapidamente.

Esse ponto é essencial. Cresce o número de jovens que dizem não querer carteira assinada, mas parte desse discurso nasce de um mercado em que o trabalho flexível parece mais acessível do que o trabalho protegido. A informalidade não avança apenas porque alguém rejeita direitos; ela também cresce quando o emprego formal não chega com a velocidade, a remuneração ou a adaptação que esse público espera.

No cotidiano, isso aparece em decisões que parecem vantajosas no curto prazo, mas podem custar caro depois. Quem trabalha sem registro continua tendo direitos trabalhistas e previdenciários quando há vínculo de emprego, mesmo que a empresa não tenha assinado a carteira. Esse é justamente o ponto tratado em trabalho sem registro e em como calcular acerto de funcionário não registrado, temas que ganharam força porque a informalidade continua muito presente no mercado.

Por que a CLT ainda faz diferença

A grande virada dessa discussão está no fato de que a carteira assinada oferece uma rede de proteção que muita gente só percebe quando perde. Férias remuneradas, décimo terceiro, FGTS, aviso prévio, contribuição previdenciária, seguro-desemprego e verbas rescisórias seguem sendo pilares importantes do trabalho formal. O recorde de empregos com carteira em 2025 mostra que esse modelo continua tendo força real na economia brasileira.

No guia sobre férias, no conteúdo sobre FGTS e na explicação sobre direitos trabalhistas, fica claro por que a CLT ainda representa proteção concreta. O trabalhador formal tem depósitos mensais de FGTS, férias com adicional de um terço, 13º salário e regras específicas de rescisão que servem justamente para evitar que a ruptura do contrato o deixe totalmente desamparado.

Quando o jovem compara apenas o valor do salário líquido com a renda aparente de atividades mais flexíveis, muitas vezes deixa de colocar na conta tudo aquilo que a carteira assinada embute. O problema é que direitos trabalhistas quase sempre pesam mais nos momentos difíceis do que nos meses comuns. É na demissão, na doença, na maternidade, no afastamento e na aposentadoria que a diferença entre trabalho formal e renda sem proteção fica mais visível.

O crescimento do empreendedorismo ajuda a explicar a mudança

O avanço do MEI e dos pequenos negócios não significa necessariamente recusa total ao trabalho formal. Em muitos casos, o que existe é uma tentativa de construir uma alternativa. O governo federal informou que os programas voltados ao MEI buscam fortalecer formalização, acesso a crédito e inclusão produtiva.

Isso revela outra face da discussão: boa parte da juventude não quer simplesmente ficar à margem, mas sim encontrar um tipo diferente de formalização, menos dependente da relação clássica entre empregado e empregador.

Essa mudança de rota também ajuda a entender por que o discurso contra a carteira assinada cresce mais nas redes do que nos números absolutos do mercado. O país bateu recorde de empregos formais, mas também viu forte expansão dos pequenos negócios e da cultura de autonomia.

As duas coisas estão acontecendo ao mesmo tempo. Por isso, a pergunta correta talvez não seja se a CLT acabou, mas por que ela passou a dividir espaço com outros modelos de trabalho e renda.

O risco de romantizar a vida sem carteira

Existe um ponto que costuma ficar de fora das conversas mais apressadas: trabalhar sem carteira ou pedir demissão para buscar renda por conta própria não é uma decisão neutra. Quem sai do emprego formal perde, em regra, o saque do FGTS, a multa de 40% e o seguro-desemprego. Isso está detalhado em pedido de demissão, rescisão trabalhista e aviso prévio.

O problema é que uma parte dos jovens decide sair da CLT olhando apenas para o presente. A flexibilidade seduz, a liberdade atrai, o dinheiro imediato parece compensar, mas o custo de abrir mão de proteção social muitas vezes só aparece depois. E quando a renda oscila, o cliente some ou a saúde falha, o emprego formal passa a fazer falta justamente por aquilo que muitos chamavam de engessamento.

Então os jovens não querem mais carteira assinada?

A resposta mais honesta é: alguns não querem, mas muitos ainda querem, e quase todos querem alguma forma de segurança junto com autonomia. Os dados oficiais não sustentam a ideia de que a juventude virou as costas para o trabalho formal de forma generalizada. O que eles mostram é um mercado em transformação, em que a carteira assinada continua forte, mas já não monopoliza o imaginário de ascensão social como antes.

A juventude brasileira entra no mercado em um momento diferente. Há mais opções, mais pressão por renda rápida, mais influência da economia digital e mais desconfiança em relação à promessa de estabilidade de longo prazo. Ao mesmo tempo, continuam existindo barreiras estruturais para o acesso ao bom emprego, sobretudo entre os mais vulneráveis. O resultado é essa mistura: de um lado, jovens buscando liberdade; de outro, um país em que a proteção do trabalho formal continua sendo decisiva.

O que essa mudança revela sobre o futuro do trabalho

A frase adeus CLT chama atenção, mas simplifica demais a realidade. O que está acontecendo não é o desaparecimento da carteira assinada. É a perda do seu reinado absoluto sobre o imaginário do trabalho ideal. O emprego formal segue relevante, cresce em números absolutos e ainda protege milhões de pessoas. Só que a juventude passou a exigir mais flexibilidade, mais sentido, mais mobilidade e mais autonomia. Quando o mercado formal não entrega isso, outras formas de trabalho ocupam o espaço.

No fim, o debate não deveria ser carteira assinada versus liberdade. O centro da questão está em como oferecer trabalho com direitos sem ignorar o desejo de autonomia que marca a nova geração. Enquanto esse equilíbrio não aparece com mais força, a CLT continuará sendo necessária, mas cada vez mais desafiada pelo modo como os jovens querem viver, ganhar dinheiro e planejar o próprio futuro.

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